Fonte:
Texto e fotos: Carlos Amaral - Instrutor de pilotagem defensiva
certificado pela Honda, instrutor de trânsito do Detran-SP na
especialidade Direção Defensiva, palestrante da Porto Seguro Cia de
Seguros Gerais, blogueiro e diretor operacional da Carlos Amaral
Motorcycle Training.
06.03.2012
Não
sei se há alguma pesquisa a respeito do tema ou mesmo alguma
estatística, mas posso afirmar com total segurança que um dos momentos
mais sensíveis (e perigosos) para todos os motociclistas é a hora de
“alicatar” os freios numa frenagem de emergência. Exige técnica apurada e
muita sensibilidade para isso.
Não
se trata aqui de explicar todos os detalhes do momento da frenagem de
emergência e por isso não importa agora quantos dedos são usados para
puxar o manete dianteiro ou qualquer outro detalhe desse tipo. Aqui o
importante é como fazer a moto parar no momento e espaço que se
apresentam na circunstância de emergência, levando-se em consideração
que trata-se de uma técnica de pilotagem defensiva e não esportiva.
Antes de mais nada, é preciso entender uma coisa óbvia, mas que muitos não atentam. Não é o freio que pára a moto, mas o atrito dos pneus com o solo. Os freios param somente as rodas, mas isso não significa que a moto irá parar também.
Nas
frenagens o freio dianteiro é o mais preciso e importante. Isso é bem
simples de entender, pois se é o atrito do pneu que faz parar a moto,
então o maior atrito será sempre do pneu dianteiro, já que o peso do
piloto junto com a inércia da moto mais o peso da moto, tudo é
transferido sempre para a frente, deixando a traseira mais leve e quase
sem atrito. Por isso é que a moto sai de traseira quando se pisa forte
no pedal de freio, pois o atrito é pequeno.
Minha
experiência nos cursos de pilotagem defensiva me ensinou que um dos
principais exercícios é o da frenagem. Devo confessar que sinto um
arrepio quando é solicitado ao aluno que venha lá de longe acelerando e,
de repente frear. Mas, o que significa frear de repente? Aqui entra
outro detalhe fundamental que é otempo de reação.
Considere
um motociclista normal: sóbrio, descansado, feliz por ter comprado a
moto de seus sonhos. Este cidadão levará 3/4 de segundo para começar a
frear. Ou seja, seu reflexo usa 75 centésimos de segundo entre o momento
que seus olhos enxergam o obstáculo e a mão e pé direitos (duas mãos no
caso de scooter) acionam os freios. Lembre-se que um piloto treinado
(piloto de competição ou de um avião caça, por exemplo) consegue
diminuir o tempo de reação para algo próximo de 40 centésimos de
segundo.
Para
exemplificar: a uma velocidade de 100 km/h, 75 centésimos de segundo
significa que a moto percorre 20,83 metros. Você certamente já ouviu
comentários sobre um acidente do tipo “nossa, … nem deu tempo de
frear!”. É isso mesmo, se o obstáculo estiver a menos de 20,83 metros, a
“porrada” é forte e na maioria dos casos fatal, pois o motociclista não
teve tempo de usar os freios! Esta é a primeira das três fases da
frenagem: seu reflexo e o tempo de reação.
A segunda fase é a distância de frenagem.
Será que toda moto freia igual? Não, não, não! As motos são como
pessoas, possuem personalidade, caráter. Por isso é necessário conhecer
bem a moto que se pilota para saber, entre outras coisas, a capacidade
de frenagem dela. Nos testes de frenagem que se faz nos cursos de
pilotagem defensiva é possível perceber com clareza estas diferenças,
mesmo em motos iguais, mas de proprietários diferentes.
Veja
o exemplo de uma moto de 1000 cm³, que pesa entre 170 e 185 kg mais o
piloto, equipada com freios ABS, suspensão e pneus perfeitos e bem
calibrados, que aciona os freios em pista reta com asfalto bom e seco.
No momento em que se usam os dois freios – mais forte na dosagem no
freio dianteiro e menos força na dosagem no freio traseiro -, esta moto
percorrerá 28 metros até parar! Aí eu pergunto: Sua moto possui freios
ABS? As suspensões estão em perfeitas condições? E os pneus estão bons e
calibrados corretamente?
Numa
moto em situação normal, sem ABS, a sensibilidade do piloto na mão e no
pé substituirá o ABS e tentará compensar as más condições de piso e as
eventuais imperfeições dos pneus ou da calibragem. Assim, nas frenagens
emergenciais, jamais se deve usar a força no freio dianteiro de modo
agressivo e repentino. O ideal é dosar a força dos dedos no manete
dianteiro de uma forma progressiva e paulatina até chegar o curso total
do manete. Claro, a teoria é linda. A maioria dos motociclistas ao
fazerem este teste comentam que “dá um medão danado pois parece que a moto vai jogar você de boca no chão ou vai escorregar de frente…”.
É
verdade. Esse relato é correto e isso pode realmente acontecer se a
força for demasiada e repentina. Muitas quedas acontecem nas frenagens
porque se usa a força dos dedos sem soltar mais o manete. Lembrem-se das
palavras progressiva e paulatina. Sua
sensibilidade deve perceber que a moto vai escorregar de frente e
mandar seus dedos aliviarem a força no manete. A mesma técnica deve ser
usada para o uso do freio traseiro. Porém, lembre-se de não acionar a
embreagem, pois nas frenagens emergenciais a roda traseira precisa ter
tração para que ela não fique solta pois essa situação facilita a
derrapagem da roda traseira.
E
alguém pode perguntar: e se o motor da moto morrer? Melhor, pois o
motor sem aceleração funciona como freio nestas situações. Alguém não
sabe o significado da expressão “freio-Motor”? Muito bem, aí está
a segunda fase, a distância de frenagem.
E
agora? Qual é a terceira fase para parar a moto? Vamos recapitular a
história: trata-se de uma boa moto de passeio (não de competição), em
piso reto, asfaltado e seco, o piloto está sóbrio, feliz, descansado e
atento. Resultado: a 100 km/h, antes de frear, a moto percorre 20,83
metros –tempo de reação. No momento da frenagem a moto percorreu 28 metros – distância de frenagem.
A soma do tempo de reação mais a distância de frenagem da moto resulta
em 48,83 metros. Caramba! Mais de 48 metros de espaço para parar a moto
em condições ideais!
Aí eu chego e pergunto: E se o chão estiver molhado? E se o piloto está cansado? E se a moto for “normal”? Aonde isso vai parar?
A terceira fase da frenagem é chamada de distância de parada.
Ou seja, a soma do tempo de reação mais a distância de frenagem da
moto. Por isso, usar a sensibilidade para dosar a força na mão e pé
direitos (duas mãos nos scooters) fará com que a frenagem emergencial
seja feita com mais segurança e “não dará tanto medo assim”. A distância
de parada da moto será menor e mais eficaz.
Moto
é união e vida. Por isso, usem-na com amor. Faça da moto sua melhor
amiga. Procure conhecê-la muito bem e respeite seus limites. Até a
próxima!
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